Seducing
Ingrid Bergman
de Chris Greenhalgh
Dificilmente duas figuras tão
emblemáticas como Robert Capa e Ingrid Bergman passariam despercebidas, não
sendo eu uma excepção de tal facto. Contudo, talvez por falta de interesse, ou,
talvez, meramente por falta de cultura, até ao momento em que o título do livro
Seducing Ingrid Bergman me captou o
olhar, o seu romance era-me desconhecido. Após a leitura da obra, não me é
possível afirmar que o meu conhecimento da relação entre ambos tenha crescido
notoriamente, uma vez que os factos foram, aqui, e como seria de esperar de um
romance, ainda que baseado em factos verídicos tal como este supostamente será,
demasiado romantizados.
A obra abre com Robert Capa em
queda livre, prestes a aterrar num campo de batalha, onde teria o propósito de
captar imagens dos tempos de guerra, como o prezado fotógrafo que, um dia mais
tarde, seria. Em simultâneo, ou assim nos é dado a parecer, Ingrid Bergman,
acompanhada pelo seu marido Petter, encontra-se na eminência de receber o seu
primeiro Óscar da Academia. São definidas, logo de raiz, duas situações narrativas
distintas, dois narradores que assim se mantêm até ao final de toda a obra: a
situação narrativa que a Robert Capa diz respeito, escrita na primeira pessoa,
o que leva a que todas as passagens relativas ao fotógrafo nos pareçam mais
reais, mais íntimas, podendo aproximar-se mais às nossas próprias sensações, ou
ao que adivinharíamos ser as nossas próprias sensações, se na situação do
personagem nos encontrássemos; e a situação narrativa de Ingrid Bergman, que,
maioritariamente devido ao facto de nos
ser apresentada por outrem, transmite uma essência mais distante sendo
que, mesmo revelados todos os seus pensamentos e emoções, estes aparecem-nos
mais exteriores a nós mesmos. Assim, e embora ambas as situações narrativas reflitam
os pensamentos mais íntimos das personagens, enquanto Capa nos é introduzido
como o personagem mais real, aquele que poderíamos facilmente ser, o que, de
facto, se adequa à realidade do fotógrafo na época, uma vez que a sua fama é
maioritariamente pós-mortem, já que
os seus direitos de autor em muitas fotografias divulgadas em vida não lhe
foram reconhecidos, Ingrid, por outro lado,
aparenta uma maior distanciação em relação ao comum-mortal, emanando,
por vezes, uma essência algo hipócrita, fingida, demasiado dramatizada, como,
de facto, será de esperar de uma, já na época conceituada, actriz. Esta
dualidade entre proximidade/distanciação, realidade/ficção é constante e, a meu
ver, a vertente mais apelativa de toda a obra.
Toda a relação de Ingrid Bergman
e Robert Capa parte do momento em que, voltado da guerra, o fotógrafo convida a
actriz, enviada a Paris, recentemente libertada pelos Aliados, a fim de
entreter as tropas, para se juntar a ele e a seu amigo ao jantar. Começa aqui a
romantização excessiva de toda a situação, sendo que a cidade contribui para
este excesso como cenário idílico ao desenrolar de uma grande paixão. Os
acontecimentos sucedem-se e o tempo de estadia de Ingrid é prolongado por
várias vezes, pois o peso que sente na consciência devido à sua traição, aliado
à vontade de estar com Capa, assim o dita. O auge da relação, como na obra é
descrita, é atingido durante a estadia de ambos nesta cidade, sendo que, embora
o saibam impossível, desejam prolongar o momento eternamente.
Ingrid surge com algum cinismo ao
descrever-se a si mesma como uma pessoa de valores formados quando, no entanto,
raras são as vezes em que a traição parece incomodá-la. Contudo, à medida em
que a realidade vai surgindo com mais clareza, Ingrid começa a pressionar o
despreocupado Capa para se casar com ela, pois, não querendo abdicar dele, não
deseja também continuar a viver uma vida dupla.
O momento em que Ingrid parte de
volta à América, deixando Robert com a promessa de a seguir assim que arranjar
recursos para tal, marca o ponto de viragem na sua relação sendo que, a partir
desse momento, esta tendencialmente se deteriorará. Mesmo após a chegada de
Capa a Hollywood, a relação entre os dois não volta a adquirir o tom do
passado, por um lado, devido ao medo constante de Ingrid de ser apanhada e, por
outro, devido ao próprio fotógrafo que sente a relação aumentar de seriedade
mais drasticamente do que para ele seria confortável. Ingrid e Robert acabam
por se separar, como a verdade assim o impõe a Greenhalgh.
Embora baseada na verdadeira
relação de Ingrid Bergman e Robert Capa, e, embora seja propositadamente
romanceada, não se verifica uma eficaz envolvência do leitor ao longo da obra
pelo que o distanciamento, embora menor nas passagens referentes ao fotógrafo,
se verifica sempre, conferindo uma perda crescente da pouca credibilidade que
os factos descrito ainda poderiam ter.
Embora Seducing Ingrid Bergman seja, efectivamente, sobre Robert Capa e
Ingrid Bergman, o esquecimento excessivo e constante das pessoas que teriam,
teoricamente, um papel importante na vida das personagens e cuja bagagem
emocional a elas associada me pareceria significativa de expor em muitas
situações descritas pelo autor, é notório. Personagens como Petter, marido de
Ingrid, Pia, sua filha, e, principalmente, Guerda Taro são raramente
mencionadas, e mesmo quando tal sucede, é feito de uma forma mais ténue do que necessário.
Guerda, principalmente, é referida em raríssimos momentos, sendo apenas
destacada com maior veemência no momento em que Robert conta a Ingrid o seu
passado com ela, embora, mesmo aí, o assunto seja mencionado com demasiada
leveza. Ora, um autor que romantiza ao ponto que Greenhalgh o faz em relação a
Ingrid e Capa, não pode aligeirar da maneira que aqui se verifica a relação
entre este mesmo Capa e Guerda Taro, a mulher que, supostamente, amou e perdeu,
a mulher que com ele criou o Robert Capa que Ingrid conhece e, segundo Greenhalgh,
ama. No fundo, o autor foca--se tanto nas nossas personagens principais que se
esquece de as apresentar verdadeiramente ao leitor, tal como são, com todo o
passado que já acarretam ao se encontrarem.
O forte literário de Greenhalgh reside fundamentalmente nas descrições de guerra sob o ponto de vista de Robert Capa, descrições que, para além de vívidas, ao serem aliadas à escrita na primeira pessoa, podem chegar a soar reais, como se Capa, ele mesmo, as pudesse assim ter descrito (embora o seu forte sempre tenha sido mostrar as situações através da sua arte, e não descrevê-las). Por outro lado, as descrições de Paris soam a artificiais, sendo, mais uma vez, romantizada a cidade que já nos é apresentada no seu auge idílico. Verdade seja dita, Greenhalgh é o mestre da romantização embora, por vezes, tocar um pouco mais a realidade parecesse forçoso.
No fim da obra, é em Ingrid que
Robert pensa, enquanto jaz, meio vivo, amputado, esperando a morte, naquele
descampado na Indochina. Já a banda Britânica Alt-J defende que é para Taro que
Capa volta (Reunited with his
leg and with you Taro)
. Em quem, das inúmeras mulheres que amou, Capa terá pensado, apenas Capa o
saberá. Tudo o resto é especulação. Assim como Seducing Ingrid Bergman o é. Talvez por isso não me tenha seduzido.

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